
Cinema: o orgulho cego de Nolan em Odisseia
Na proposta de adaptação do premiado diretor, haverá algo além do apelo à grandiosidade da obra homérica? Nem tudo no filme é descartável. Mas ele aproxima-se mais de um medievo genérico, sem as potencialidades da história original
OutrasPalavras
Por Wibsson Ribeiro
Publicado 30/07/2026 às 20:49 - Atualizado 08/08/2026 às 01:55
De tempos em tempos Hollywood lança filmes grandiosos que são verdadeiros eventos, promessas de de redefinição até mesmo de relação com o cinema. Por tudo o que tem sido escrito e dito nas últimas semanas, é incontestável que A Odisseia de Christopher Nolan já é um dos filmes mais importantes da década, de um dos diretores mais consagrados dos últimos trinta anos para o cinema comercial americano. É preciso, porém, dar um passo ao lado, reagir com calma e distância quando estamos diante de um espetáculo tão ofuscante.
A máquina de opiniões em movimento
As polêmicas em torno da adaptação de Christopher Nolan começaram já nas primeiras divulgações nos veículos especializados. Lupita Nyong’o, escalada como Helena, gerou o ódio de uma parte racista do público; a escolha da tradução de Emily Wilson, mais recente, como texto base, foi acusada de “woke” por públicos conservadores; as fotos de figurinos que supostamente não condiziam com a época em que se passaram os eventos do épico homérico; toda a balbúrdia em torno do uso de câmeras IMAX de 70 mm pela primeira vez em um longa de ficção – uma câmera cara, barulhenta, que gerou diversos problemas na gravação de diálogos dos atores. E, para completar, o fato de que poucos são os cinemas capazes de realizar exibições de IMAX 70 mm como planejado por Nolan, gerando a crítica de que grande parte do público não teria acesso ao “verdadeiro filme”.
Essas são apenas algumas das polêmicas cercando A Odisseia, muitas delas, como as acusações ao texto de Emily Wilson e à escalação de atores não-brancos, evidentemente, disparates de um público reacionário. Mas há também críticas vindo do público de esquerda quanto a questões envolvidas na produção do filme. O fato de algumas das filmagens terem acontecido em uma área ocupada do Saara Ocidental, por exemplo, levantaram questionamentos à ética de Nolan e à conivência do cinema com situações de opressões a minorias (no caso, o povo indígena Saharaui, que tem sido obrigado a se deslocar por ações do estado marroquino).
As muitas salvações do cinema
Todas essas questões podem parecer extrafílmicas, mas já fazem parte da recepção da obra e de toda uma enxurrada discursiva produzida em torno de um título que, em duas semanas, já arrecadou US$ 639,6 milhões, projetando arrecadar ao final da sua janela de exibição algo em torno de US$ 1,2 bilhão e US$ 1,5 bilhão. Isto é, estamos diante de uma máquina hollywoodiana de disputa cultural, um filme que busca estabelecer novos padrões, desde o uso de câmeras e tecnologias nunca antes testadas até a insistência no uso de efeitos práticos em muitas cenas complicadas. Escolhas que por si só pode parecer uma crítica ao estilo de cinema adotado para a realização dos filmes de super-herói da Marvel, recheados de CGI, filmados com os atores contracenando com bonecos em fundos verdes. Em suma, estamos diante de mais uma daquelas “salvações do cinema” que Hollywood alardeia quase anualmente (lembremos de toda a propaganda em torno do “Barbenheimer”, o evento que foi o lançamento simultâneo nos cinemas de Barbie, de Greta Gerwig, e Oppenheimer, filme anterior do próprio Christopher Nolan).
Mas será mesmo? Quando se fala em Christopher Nolan e seus espírito messiânico, nunca é demais recordar do seu ímpeto para levar Tenet aos cinemas em 2020, no auge da pandemia da COVID-19, insistência que levou a atritos do diretor com a Warner e a críticas no mundo todo. Difícil pensar em heroísmo quando se tem esse background para se levar em conta.
O que é A Odisseia de Nolan?
Toda adaptação cinematográfica tem direito a realizar suas liberdades em relação ao material de origem, mas o que acontece na atual versão cinematográfica do épico grego não é esteticamente distinto do que tem sido feito no cinema mainstream contemporâneo. É verdade que Nolan traz Ulisses (Matt Damon) para seu universo de homens melancólicos, arrependidos de suas decisões passadas, como em Oppenheimer, mas aqui o material original é tão distorcido que o espectador pode se questionar se a escolha do texto homérico foi baseada em algo além do apelo à grandiosidade.
Vejamos. Os deuses, elemento fundamental no mundo grego e no poema A Odisseia, foram reduzidos a breves aparições de Atena (Zendaya) (que na verdade é muito mais uma projeção dos traumas de guerra do protagonista do que a forte deusa da justiça); manifestações da natureza como trovões para evocar a existência de Zeus e imagens do mar revolto para indicar a fúria de Poseidon. O erotismo que existia em episódios como o de Circe (vividas no filme pela atriz Samantha Morton) foi totalmente eliminado, e a relação de poder e sexo que existia no episódio de Calipso (ela mesma uma deusa no livro original) foi substituída por uma relação que mais parece uma sessão prolongada de terapia comandada pela Calipso de Charlize Theron.
Episódios importantes foram condensados ou inteiramente cortados. As sereias, por exemplo, são vistas de passagem em poucos segundos de tela, e seu canto provoca no traumatizado Ulisses não uma explosão de prazer e euforia, mas dor e reflexão sobre os atos do passado. Já os figurinos e o design do filme remetem muito mais a adaptações televisivas de fantasia, como a série Game of Thrones e seus numerosos derivados, do que algo que visa representar o mundo grego. Um televisivo medievo genérico é o que se coloca aos nossos olhos, e não um filme que explora a fundo as potencialidades visuais da história original.
O que Nolan faz é, digamos de uma vez, algo inacreditável: pegar um poema épico de fúria e guerra e o transformar em um filme sobre dor, arrependimento e luto, quase uma continuação espiritual de seu filme anterior, Oppenheimer, com a bomba atômica substituída pelo cavalo de Tróia. A artimanha que garantiu a vitória do exército de Ulisses, episódio central na Ilíada, é transformada numa espécie de gesto inaugural da destruição do ocidente e da civilização grega, uma violação das regras de hospitalidade e desrespeito à chamada lei de Zeus.
Para além disso, atores como Tom Holland e Anne Hathaway tem que conviver com falas simplistas, sempre muito explicativas, e cenas que caem no constrangimento quase sempre. Até mesmo Robert Pattinson, que até o final convence como o vilão Antínoo, termina o filme na situação ridícula de gritar, durante a batalha final, coisas como “a lança, pegue a lança”, ou “a espada, agora pegue a espada”, como um participante de gincana. Isso tudo no clímax da narrativa, o momento em que Ulisses, retornando para casa, mata um a um os pretendentes de Penélope com seu arco e flecha, tal qual um Rambo da antiguidade.
É claro que nem tudo é descartável no filme. A visita ao Hades rende uma excelente atuação de Elliot Page. O encontro com os mortos não se dá em um reino subterrâneo, mas em um lugar ermo nos confins do mundo, com soldados falecidos brotando da terra, o que nesse caso foi uma solução visual criativa. A transformação dos homens em porcos na ilha de Circe também é impactante, causando asco e desconforto na medida certa. Há até mesmo jumpscares, como no ataque dos Lestrigões e no ataque do terrível monstro marinho Cila, que elimina seis dos soldados de Ulisses. Há elementos de filmes de horror nessas cenas que podem apontar para futuras produções de Nolan e que renderam bons momentos, mas elas acontecem dentro de um tom geral equivocado.
Um herói entristecido
A opção de Nolan por uma crítica da guerra gera um herói mais próximo do pensamento cristão do que do paganismo grego. O Ulisses de Matt Damon é o responsável pela destruição do mundo, e sabe disso, chegando a vocalizar tal pensamento em uma das falas mais ridículas do filme, quando diz que “nossa era de bronze está colapsando”.
Nolan explica a crise grega como um desrespeito a determinadas normas de convivência, um confuso comentário político que ao mesmo tempo condena a guerra de forma vazia e sugere um paralelo com a política e com os homens de poder de nossa época.
Tudo é devidamente explicado em A Odisseia. A exemplo do que já aconteceu em outros trabalhos de Nolan, como Interstellar (2014)e o já mencionado Oppenheimer, a obra mais recente é cheia de diálogos que explicitam aquilo que nós já estamos vendo, em uma desconfiança terrível da capacidade do espectador de apreender o que vê em tela. Fica claro que essa sanha explicativa move Christopher Nolan, um menino encantado tanto pelos seus personagens quanto por seus brinquedinhos cinematográficos, a começar pela poderosa IMAX 70 mm. Tudo precisa ser esclarecido de maneira lógica e concreta, tal qual um engenheiro resolvendo uma equação. A técnica para ele nunca serve à invenção, e sim à solução. É uma escolha curiosa que um inimigo da fantasia como ele tenha decidido adaptar uma das histórias mais fantásticas já produzidas, mas é coerente com sua trajetória. Da mesma forma como ele foi peça chave na transformação dos filmes de super-heróis em filmes de tons sombrios e militarizados, agora ele transforma a mitologia grega em um mundo sóbrio, cheio e justificativas e com fenômenos mágicos que acontecem da forma mais discreta possível.
Seus filmes são puzzles, e não há nenhum problema nisso, mas sim no fato de que a cada mexer de peças tudo precisa ser minuciosamente esclarecido ao espectador. Estamos diante de um cineasta cuja linguagem favorita parece ser a do tutorial, a da explicação minuciosa de cada movimento. Quando os filmes se entregam à ação frenética, como em Tenet (2020) e Dunkirk (2017), essa movimentação de personagens que são pouco mais do que peças em uma grande engrenagem, seu cinema funciona. Mas quando se trata de tentar adicionar drama, profundidade e comoção, o fracasso é retumbante e os filmes ficam saturados de diálogos expositivos ou redundantes.
Um “épico” da culpa
Resta ao Ulisses hollywoodiano cantar não seus feitos de guerra, mas sua culpa, e realizar sessões de terapia com Atena, Calipso, as sereias ou quem quer que dê espaço para que o herói possa remoer seus erros do passado.
Tamanha distância do tom e da intenção da obra original nos leva a suspeitar de que a adaptação foi uma escolha fetichista da parte do diretor, conectada com a decisão de adotar o uso das câmeras mais caras e mais complicadas do mundo. Ao tomar para si a mais épica das histórias do ocidente e transformá-la em um espetáculo grandioso em torno da culpa de um herói de guerra, Nolan apenas transpõe para a sua esfera de controle um mundo que, escancaradamente, tem poucas conexões com seus interesses enquanto cineasta.
Verdade seja dita, Nolan não é um outsider no cinema, ou um auteur disposto a se enfrentar com o gosto médio. Desde que reinventou os filmes de super-herói com sua trilogia do Batman ele é um queridinho do público e dos estúdios. Agora ele tenta criar outro tipo de evento cinematográfico grandioso, desvinculando-se desse mundo das HQ’s para um mundo de adultos infantilizados. Mesmo assim, a sombra da guerra e das neuroses brancas do ocidente assombra seu Ulisses, como assombrou vários de seus últimos filmes, devolvendo os mesmos clichês de sempre.
“Desafie os deuses” diz o slogan oficial do filme. Infelizmente, ao invés de uma celebração ou estudo da desmedida grega, o que o filme revela ser é o exercício de um diretor com aval de grandes produtores e com disponibilidade de muito dinheiro para fazer o que quer, mesmo que as coisas não façam sentido esteticamente. Os exageros aqui são apenas do diretor Nolan, satisfazendo os seus caprichos, filmando o que quer, com quem quer, como quer. Não há desafio na Odisseia de 2026. E quase não há deuses.
Fonte:https://outraspalavras.net/poeticas/cinema-o-orgulho-cego-de-nolan-em-odisseia/


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