OS OITO ODIADOS : PORQUE ESSE PODERIA SER O MELHOR FILME DE QUENTIN TATANTINO

Os 8 Odiados: porque esse poderia ser 

o melhor filme de Quentin Tarantino


Crítica do oitavo filme do diretor Quentin Tarantino, com Samuel L. Jackson, Kurt Russel e Tim Roth.

Quando Brad Pitt aparece sorrindo para a câmera ao final de Bastardos Inglórios e manda a célebre frase "sabe, eu acho que essa é minha obra-prima", eu fiquei com medo. Para mim, era clara a referência ao próprio Tarantino fazendo tal afirmação, como se ele soubesse que esse seria seu ápice como cineasta, que não tinha mais para onde correr como criativo. 
E o que fazer quando se encontra, finalmente, seu mais alto grau? O que se faz depois de supor a perfeição na sexta tentativa? Django Livre tem lá seus momentos, mas ainda carregava vícios que poderiam se tornar repetição e o diretor autor acabaria caindo no limbo de outros que não souberam seguir depois do topo, no melhor estilo Tim Burton de fazer cópias mal feitas da própria obra. 
Era hora de voltar para o básico.

Os 8 Odiados e o ótimo "timing"

John Ruth é um caçador de recompensas, interpretado por Kurt Russel, que está levando uma condenada, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), para ser enforcada. Estamos no Wyoming do pós guerra civil, no norte gelado do oeste americano. Uma nevasca coloca Ruth e sua prisioneira em uma estalagem com mais figuras bem peculiares, todos de honra bem duvidosa, como haveria de ser em uma região inóspita dessa época americana. Um outro caçador de recompensas, expulso do exército. Um ex-membro de gangue sulista que jura ser o novo xerife da cidade cidade adiante. O carrasco que enforcará sua prisioneira, um mexicano que cuida do abrigo, um silencioso cowboy que está a tomar notas da própria história e um ex-confederado já bem velho, talvez velho demais.  
E enquanto passamos boa parte do ano com produções complexas e pretensiosas - Birdman, grande vencedor do Oscar, e seus planos-sequência, Mad Max e sua ação exacerbada, VingadoresStar Wars e todas as aventuras carregadas dos braços da Disney, O Tarantino vem e nos dá teatro.
E que belo timing. Em tempos de blockbusters cheios de camadas, roteiros labirínticos, efeitos em cima de efeitos, locações mil, o Tarantas grava quase toda a sua história em um único cenário ao melhor estilo anos 50 de Hitchcock e 12 Homens e uma Sentença. Ao melhor estilo Cães de Aluguel. Pela contramão, o autor nos dá o início, algo simples e bonito. Lembrando que os adjetivos usados neste parágrafo não sugerem demérito a nenhum dos filmes acima.

Os 8 Odiados e o visual

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Os 8 Odiados é um confronto de conversas claustrofóbicas e uma textura teatral espalhafatosa. A entoação das vozes, as posições bem demarcadas em cena, como se estivessem no palco. Não temos seus fantásticos diálogos que misturam filosofia e cultura pop, como o papo da Madonna virgem em Cães ou a mitologia por trás do Superman em Kill Bill Vol. 2, mas isso tudo seria apenas distração para a plástica que o diretor queria nos oferecer com sua gravação feita em filme de 70mm, uma maravilha expandida para gravar, ironicamente, um ambiente fechado. 
Não se engane, ele quer muito que você preste atenção nos detalhes visuais. Ele quer que você desconfie de todos como eles desconfiam um dos outros. Ele quer que você repare nas pistas, no que é mostrado e o que é escondido. Tudo isso embalado pela trilha sonora imbecil de boa do Ennio Morricone, compositor, arranjador e maestro italiano conhecido pelas trilhas dos spaghetti westerns do diretor Sergio Leoni. 

Seria esse o melhor filme do Tarantino? 

No mundo há conversas cujo o objetivo é chegar a lugar nenhum. Maradona ou Pelé, biscoito ou bolacha, saber se no céu tem pão. O resultado é o mesmo quando a pergunta é "qual o melhor filme do Tarantino?". Há muita coisa envolvida, muitas sentimentalidades que não são possíveis de ficar de fora e nem poderiam ser levadas em conta. Tem quem prefira as ambientações urbanas dele, quem vá pender para as homenagens aos filmes orientais e de faroeste, tem quem prefira a carga histórica, os que só vão pelo gore e a galhofa, quem ostente o trabalho mental de encaixar o roteiro rocambolesco antes das outras pessoas. Também influi o momento de cada pessoa, a recepção mais calorosa de um dos filmes pelo simples fato de tê-lo assistido logo na estreia, de ter participado do calor do lançamento, de ótimas discussões quentes logo após a sessão, no bar, na casa de alguém, na Internet. 
Eu, particularmente, me sinto agraciado quando algo sai do que poderia ser esperado. Foi assim com seus primeiros filmes, o estilo de narrar uma história e de conduzir diálogos em prol de um plano bem arquitetado. Mas depois o previsível era esperar pelo improvável. Este Os 8 Odiados me deixou contente por quebrar expectativa atrás de expectativa sem sair do decoro tarantinesco. Tudo ali é muito familiar, continua impregnado em minha memória afetiva. Na soma dos fatores, do lado de cá, este se encaixa entre os melhores.
Ironicamente, vejo uma renovação em um caminho que está no final. Ao que consta, segundo o próprio Tarantino, sua carreira como cineasta vai até o décimo filme.
E se esse é o começo do fim, acho que o que vem depois do ápice seja a volta para casa.

Pequeno epílogo

Que grande ator é o pequeno Walton Goggins. Eu já gostava muito dele como antagonista da série Justified e de suas aparições em Sons of Anarchy. A delícia em vê-lo em cena se potencializa sob a direção do Tarantino. Vão atrás deles, pessoas.

Por Jader Pires

publicado em 08 de Janeiro de 2016, 00:05

Fonte:http://papodehomem.com.br/os-8-odiados-quentin-tarantino-porque-esse-poderia-ser-o-melhor-filme-dele/


OBRAS DO ACASO 

Os Oito Odiados é um exercício de metalinguagem desde sua concepção. Quentin Tarantino é um diretor sempre muito referente, que povoa seu filmes com todo tipo de citações e homenagens. E seu cinema parece sempre muito consciente de sua condição cinematográfica.

Com esse novo longa, Tarantino parece ter aprofundado ainda mais sua obsessão metalinguística. E aqui vão, em oito capítulos, os fatos que justificam esse ponto de vista.

Capítulo 1: O Nome

Eis o mais óbvio, certo? Os Oito Odiados é o oitavo filme de Quentin Tarantino. Fato que, aliás, é egocentricamente anunciado nos créditos iniciais.
A trama mostra um caçador de recompensas, interpretado por Kurt Russell, tentando levar uma prisioneira (Jennifer Jason Leigh) até a forca. Graças a uma nevasca, a dupla acaba presa em uma estalagem com um grupo suspeito.
O elenco da leitura ao vivo do roteiro (vazado) de Os Oito Odiados
O elenco da leitura ao vivo do roteiro (vazado) de Os Oito Odiados

Capítulo 2: O roteiro vazado

Em janeiro de 2014, o roteiro do que seria Os Oito Odiados vazou. Tarantino culpou o agente de um dos atores do elenco, ameaçou processar a Gawker Media por ser dona do blog que disponibilizou o arquivo para download e disse que não faria mais o filme.
Em abril do mesmo ano, ele organizou uma leitura pública do roteiro em um evento em Los Angeles. Com ingressos vendidos a 200 dólares, algumas pessoas puderam assistir aos atores já contratados para o então finado projeto interpretando o roteiro no palco.
No mesmo abril, já começaram os rumores de que o filme iria sim ser produzido. Fato que, como todos sabemos, se concretizou. O fim de uma pequena novela que expôs os meandros da indústria cinematográfica para o público.
Teria a leitura do roteiro em um palco, nos moldes de uma peça de teatro, influenciado a estrutura teatral de Os Oito Odiados?

Capítulo 3: Cinema ou teatro?

O filme é quase totalmente passado em um só ambiente, a tal estalagem que os personagens se vêem confinados. Assim, ele remete diretamente a uma estrutura teatral. O isolamento do palco, tão importante para a manutenção da credibilidade narrativa — exceto em peças mais EXTRAVAGANTES — é constantemente referenciado pela obsessão dos personagens com a porta.
Seria o desespero para mantê-la fechada apenas uma proteção contra o frio? Ou também um esforço para garantir a separação entre o palco e a vida real?
Os Oito Odiados

Capítulo 4: Nomes e arquétipos

Major Marquis Warren, ou “The Bounty Hunter”. John Ruth, ou “The Hangman”. Daisy Domergue, ou “The Prisoner”. Chris Mannix, ou ”The Sheriff”.
Nenhum personagem em Os Oito Odiados é apenas ele mesmo. Eles são representações de funções narrativas dentro da história que Tarantino pretende contar. E isso é explicitado pelos codinomes que são tratados ao longo do filme.
Isso pra não entrar ainda nas interpretações que apontam Os Oito Odiados como uma alegoria para os Estados Unidos, com cada personagem representando oprimidos e opressores dentro da cabana alegórica que representa a América.

Capítulo 5: Revelando o truque do cinema

O longo flashback que serve como interlúdio para Os Oito Odiados é o grande revelador da importância da metalinguagem no filme. Depois de o espectador se aprofundar na encenação proposta até aquele momento na projeção, o filme para e mostra como todos os acontecimentos foram preparados. Personagens ocupam seu papeis, o cenário é posto de pé, os diálogos são ensaiados, a equipe se confraterniza. E o diretor ocupa seu lugar na coxia do teatro. Só falta o grito de “ação”.
Lindo. Palmas.

Capítulo 6: O narrador onisciente

Vi gente se incomodar com a súbita narração em off que aparece na metade da projeção. Mas ela deve ser encarada segundo seu propósito.
Se você precisava de alguma prova de que a metalinguagem é parte essencial de Os Oito Odiados, aí está. O próprio Tarantino aparece, ainda que apenas com sua voz, para contextualizar os acontecimentos, te pegar pela mão e te lembrar de que, no fim das contas, é tudo um filme.

Capítulo 7: Capítulos

Apesar de não ser uma novidade na carreira de Tarantino, que usa esse recurso de dividir sua história em capítulos com frequência, é inegável que a intrusiva divisão observada aqui colabora para reforçar as características metalinguísticas do filme.

Capítulo 8: A moral da História

O final do filme não poderia ser mais didático. E um texto, citado ao longo de toda a projeção, finalmente aparece envelopar uma moral cheia de significados.
Os Oito Odiados cresce quanto mais você pensa nele, uma característica comum entre grandes obras de arte. Resultado de um projeto que poderia ser chamado de arrogante ou auto-indulgente, mas que nas mãos de um gênio da ENVERGADURA de Tarantino se torna inesquecível.
Um estudo profundo sobre a arte de se contar uma história, que ganha força graças a interpretações sempre brilhantes. Samuel L. Jackson deveria se limitar a trabalhar com Tarantino. Tim Roth faz grande trabalho imitando Christoph Waltz. E Jennifer Jason Leigh rouba a cena em mais um grande papel feminino na obra do diretor.
Vamos torcer para Tarantino repensar suas decisões sobre aposentadoria.

Outras Obras do Acaso você encontra em medium.com/obras-do-acaso. ;)

Por Bruno Ondei
5 de Janeiro de 2016 

Fonte:http://judao.com.br/tarantino-faz-exercicio-de-metalinguagem-e-mais-uma-obra-de-arte-com-os-oito-odiados/



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